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domingo, 30 de agosto de 2026

Há um rio subterrâneo que corre - Maria Clara Michels.

Um rio subterrâneo corre por dentro de mim.
Nos dias ímpios, de voragem, obstinação, sorvedouro, remoinho, turbilhão, vai arrancando terra, troncos, galhos, vai derrubando e tragando gente, plantas, bichos, vai desbarrancando ribanceiras e matas, vai fazendo gritarem, enlouquecidos, os macacos nas árvores, as aves emplumadas, os jacarés que perambulam pelas margens.;;;;;;;
Nos dias de fúria, de tropelia, de tragadeiro, de voracidade, de abismo, vai cortando e despedaçando o que encontra pela frente, vai sorvendo seu próprio leito, vai destruindo as plantas que impedem a erosão das margens, vai botando abaixo qualquer bicho, qualquer casinhola de pescador, de ribeirinho, vai jogando longe pedras e paus, os peixes e as tartarugas, os corpos dos desavisados e os pequenos barcos e canoas que teimam em singrar as águas intranquilas.
Nesses dias, de resvaladouro e perambeira, arrasta tudo e come com sua fúria, afoga até o último despojo, não deixa pedra sobre pedra, traga, consome, destrói, mastiga e engole, só devolvendo o que não mais lhe cabe, o que não mais lhe sabe, o que não mais lhe fica nas profundezas do estômago líquido.
E nesses dias todos lhe escutam o berro, o grito, o estrondo que as águas perpetuam em ecos e estragos, o avassalador passar pelas margens rompidas, pelos diques destruídos, pelas pontes derrubadas. É um urro de fera, uma explosão de coisa ferida, um gigantesco bramido de revolta e de dor inglória. Nada segura, nada acalma, nada tranquiliza essa rebeldia, essa luta insana contra as margens que o oprimem, contra o espaço que o aprisiona. Nada sossega essas águas revoltas e violentas.
Mas há tempos e são muitos, em que este rio sem nome corre sereno no seu leito, sussurrando para os botos e pequenos peixes de todas as cores, abraçando suas margens e beijando delicadamente os pés nus de quem se aproxima da água.
Tempos em que sacia a sede e cede seus dons e dádivas para matar a fome, tempo em que envolve e afaga corpos acalorados, em que recebe com afeto braços e pernas, corpos e barcos. Tempos de suavidade e fartura, de limpidez e calma, de deslizar manso pela sua própria estrada, seu próprio caminho, de percorrer murmurante o seu trajeto, de tocar com languidez as pontes e os diques, as pedras das cascatas, as árvores e a vegetação que o abraçam de volta...
Tempos, dias, de embalar o riso das crianças que se jogam das margens, que se balançam em boias coloridas, que disputam o melhor lugar ao sol na areia clara que o cerca. Tempo de oferecer refrigério e guarida, sombra e folguedos, distração e encanto.
Há esse rio subterrâneo que corre por dentro de mim. E ele se mostra furioso e indomado ou amável e terno, conforme a mão que se estende e o toca, abrupta ou gentil, como o rio mesmo reage às intempéries, ao vento, às mãos que o acariciam e protegem ou às mãos que o hostilizam, agridem, exploram e despojam.



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