Nos dias ímpios, de voragem, obstinação, sorvedouro, remoinho, turbilhão, vai arrancando terra, troncos, galhos, vai derrubando e tragando gente, plantas, bichos, vai desbarrancando ribanceiras e matas, vai fazendo gritarem, enlouquecidos, os macacos nas árvores, as aves emplumadas, os jacarés que perambulam pelas margens.
Nos dias de fúria, de tropelia, de tragadeiro, de voracidade, de abismo, vai cortando e despedaçando o que encontra pela frente, vai sorvendo seu próprio leito, vai destruindo as plantas que impedem a erosão das margens, vai botando abaixo qualquer bicho, qualquer casinhola de pescador, de ribeirinho, vai jogando longe pedras e paus, os peixes e as tartarugas, os corpos dos desavisados e os pequenos barcos e canoas que teimam em singrar as águas intranquilas.
Nesses dias, de resvaladouro e perambeira, arrasta tudo e come com sua fúria, afoga até o último despojo, não deixa pedra sobre pedra, traga, consome, destrói, mastiga e engole, só devolvendo o que não mais lhe cabe, o que não mais lhe sabe, o que não mais lhe fica nas profundezas do estômago líquido.
E nesses dias todos lhe escutam o berro, o grito, o estrondo que as águas perpetuam em ecos e estragos, o avassalador passar pelas margens rompidas, pelos diques destruídos, pelas pontes derrubadas. É um urro de fera, uma explosão de coisa ferida, um gigantesco bramido de revolta e de dor inglória. Nada segura, nada acalma, nada tranquiliza essa rebeldia, essa luta insana contra as margens que o oprimem, contra o espaço que o aprisiona. Nada sossega essas águas revoltas e violentas.
Mas há tempos e são muitos, em que este rio sem nome corre sereno no seu leito, sussurrando para os botos e pequenos peixes de todas as cores, abraçando suas margens e beijando delicadamente os pés nus de quem se aproxima da água.
Tempos em que sacia a sede e cede seus dons e dádivas para matar a fome, tempo em que envolve e afaga corpos acalorados, em que recebe com afeto braços e pernas, corpos e barcos. Tempos de suavidade e fartura, de limpidez e calma, de deslizar manso pela sua própria estrada, seu próprio caminho, de percorrer murmurante o seu trajeto, de tocar com languidez as pontes e os diques, as pedras das cascatas, as árvores e a vegetação que o abraçam de volta...
Tempos, dias, de embalar o riso das crianças que se jogam das margens, que se balançam em boias coloridas, que disputam o melhor lugar ao sol na areia clara que o cerca. Tempo de oferecer refrigério e guarida, sombra e folguedos, distração e encanto.
Há esse rio subterrâneo que corre por dentro de mim. E ele se mostra furioso e indomado ou amável e terno, conforme a mão que se estende e o toca, abrupta ou gentil, como o rio mesmo reage às intempéries, ao vento, às mãos que o acariciam e protegem ou às mãos que o hostilizam, agridem, exploram e despojam.



