terça-feira, 13 de janeiro de 2026
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
O BULE MONSTRO- Manoel Magalhães
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No coração de Pelotas, onde o passo apressado das pessoas se misturava ao rangido antigo das calçadas, havia um lugar que não cabia apenas numa vitrine: o Bule Monstro. Não era só um bazar. Era uma pausa no tempo.
Entrar no Bule Monstro exigia certa disposição para o espanto. Logo na porta, os tecidos pendiam como bandeiras de países imaginários — sedas cansadas de festas, algodões que já tinham ouvido confidências, rendas que pareciam guardar a respiração das antigas salas de visita. Havia cores que não se usam mais, tons que só sobrevivem na memória das avós e nos sonhos de costureiras solitárias.
Mais ao fundo, os lustres. Ah, os lustres. Cristais que capturavam a luz do meio-dia e a devolviam em fragmentos, como se o sol tivesse sido quebrado em pequenos segredos. Alguns pendiam baixos, quase tocando as cabeças, obrigando o visitante a baixar o corpo — gesto involuntário de reverência. Outros, altos e majestosos, pareciam esperar um salão que nunca mais viria.
O Bule Monstro vendia também o inútil essencial: puxadores, porcelanas, copos de cristal com uma lasca na borda, mas ainda assim belíssimos. Objetos que não pediam urgência, apenas companhia. Coisas que não gritavam “compre-me”, mas sussurravam “lembre-se”.
Os vendedores conheciam o silêncio. Sabiam quando falar e, principalmente, quando não interromper o diálogo invisível entre o freguês e um pedaço de tecido antigo ou um lustre que já iluminara outros rostos. Ali, comprar era quase secundário; o principal era tocar o passado com a ponta dos dedos.
O nome — Bule Monstro — sempre pareceu uma provocação afetuosa. Um bule desproporcional, talvez, capaz de servir chá para uma cidade inteira, ou um monstro manso, feito de memória, poeira e brilho. Nada ali era assustador; o estranho era, antes, familiar demais.
Quando fechou, não foi apenas um comércio que se foi. O centro de Pelotas perdeu um dos seus espelhos mais delicados, aquele que refletia não o presente apressado, mas o tempo que insiste em ficar. Ainda hoje, quem passa por aquele trecho da rua jura ver, no reflexo das vitrines vizinhas, um lampejo de cristal — como se o Bule Monstro continuasse aceso, iluminando discretamente a memória da cidade.
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